"Estômago", uma boa pedida!
No conjunto da atual produção cinematográfica nacional, o longa-metragem "Estômago" poderia até ser recebido como mais uma obra que trata das desventuras do migrante nordestino na cidade grande ou faz um retrato do sistema carcerário brasileiro. No entanto, tal interpretação engajaria demais a proposta do filme, que tem justamente na despretensão de sua história – e na maneira divertida como ela é contada – o mérito de sua realização.
Com título que a primeira vista mais parece se referir a um documentário científico do que a uma ficção, "Estômago" é uma co-produção Brasil-Itália que traz num roteiro bem amarrado a história de Raimundo Nonato, talentosamente interpretado pelo ator baiano João Miguel (Cinema, Aspirinas e Urubus, O Céu de Suely). O personagem é um nordestino pacato que, sem nenhum tostão, vai tentar a vida numa metrópole qualquer do sul do Brasil e lá, por questão de necessidade, acaba descobrindo e dominando como ninguém a arte de cozinhar. Sua saga na cidade é iniciada num boteco velho (onde aprende a preparar coxinhas), passa por um requintado restaurante italiano e termina, inusitadamente, na cadeia.
Com dois tempos narrativos paralelos que se encontram ao final da história, o filme vai apresentando sutilmente a adaptação de Nonato à vida urbana e à cela do presídio onde foi parar. No fundo, tais ambientes acabam funcionando como cenário para uma reflexão, no mínimo, incomum: a de que o ofício da cozinha (entenda-se o da boa cozinha), à semelhança da arte, pode se mostrar um verdadeiro instrumento de poder na conquista de espaço, prestígio, e quem sabe até da "alma gêmea".
O filme foi lançado em 2007 e é o primeiro longa do diretor Marcos Jorge, experiente em curtas e publicidade, mas pouco conhecido na cena nacional. Inspirada no conto "Presos pelo Estômago" (do livro "Pólvora, Gorgonzola e Alecrim"), de Lusa Silvestre, a fita já carrega prêmios e elogios em festivais no Brasil e exterior. Vale dá uma conferida principalmente pela ótima e divertida atuação de Marcos Jorge, e pela trilha sonora leve e bonita, que, também um valioso elemento narrativo, enriquece a história como um tempero a mais a sobressair naquele prato predileto e bem servido.
(Brasil-Itália, 2007)
Diretor: Marcos Jorge
Duração: 115 minutos
Drama - Censura: 16 anos
Por Sidnei Matos
Estômago
