Mensagem de Antônio Godi ao Projeto Lanterninha:
Acredito que os projetos culturais contemporâneos devem ter lanternas...
Lanternas elétricas a construír dias artificiais...
Entenda-se, o dia é a dimensão da luz em contra-ponto com a noite escura...
Que outros tantos não pensem que desprezo a profundidade da escuridão...
Penso que como a luz elétrica criou um dia artificial...
A fotografia e o cinema apontou para paradigmas novos da vida humana...
Nesse sentido, antes de dar conta das questões solicitadas...
Informo que aqui mando um texto sobre o tema...
Um texto que ganhou nova forma durante a experiência de um filme...
Um texto contaminado pela vida e pelo registro tecnológico de sua reprodução...
UM VISIONÁRIO DA REPRODUÇÃO DA VIDA E DA MORTE
Há 70 anos um dos maiores pensadores do século XX escreveu um texto emblemático e então misterioso, tentando entender um tempo atravessado por mutações estéticas e comunicações inusitadas na ordem da “reprodutibilidade” técnica tanto da arte quanto da vida. Tratava-se de um contexto histórico marcado por complexos conflitos étnicos e políticos que descambariam na II Guerra Mundial. Enfim, um dos acontecimentos mais determinantes do último século que ainda hoje guarda reverberações da ordem da tecnologia, da cultura, da arte e principalmente da guerra.
Reverenciar e tecer congratulações ao enigmático e visionário texto do pensador em questão relaciona-se ao contexto sócio-estético e tecnológico desse início do século XXI. Aqui, onde os conflitos do Oriente Médio ganham proporções. Aqui onde as demandas de guerra são justificadas por questões religiosas milenares. Aqui, onde essas ações de ordem social, étnica e política são desenvolvidas através de uma tecnologia bélica e de uma estetização da mídia sem precedentes. Cabe pensar sobre as viagens teórico-reflexivas de Walter Benjamin, um pensador para além de seu tempo.
Enfim, nessa contemporaneidade onde as tecnologias de produção das coisas da vida humana ganham lugar, tanto na sua condição primacial de ser e estar quanto nas possibilidades tantas de suas reproduções e representações através da arte e da comunicação ele é o homem e a referência de novas vidas e idéias. Entenda-se, aquele que vislumbrou teoricamente essa discussão basilar sobre a existência atual conectada a variáveis muitas levando em conta a vida e suas possibilidades tecnológicas, culturais e artísticas. Tudo isso tendo como pano de fundo a interatividade com base em variáveis sociais que turbinariam o partilhamento da existência através de reproduções inusitadas transitando da idéia e sentido da subjetividade na direção imensurável das massas sociais.
Vale iniciar, afirmando que a comunicação humana usou a técnica e a arte de reprodução da vida para continuar existindo. Enfim, através de determinados códigos partilhados, informações cruciais sobre a existência ganhariam formas diversas e, legitimariam as sociabilidades humanas. Os códigos de comunicação tanto gestuais quanto das falas que guardam ordem matricial na essencialidade do corpo apontaram historicamente para uma extensão do que somos na direção da reprodutibilidade e ampla receptividade. Nessa linha a tecnologia humana produziu e disseminou determinados artifícios físicos e, simbólicos de sobrevivência assegurando a nossa sede de sociabilidade através da necessidade do partilhamento sócio-histórico de expedientes materiais e imateriais. Enfim, ambos potencialmente interativos, simbólicos e culturais para além de físicos e materiais.
A cultura humana sempre teve como perspectiva de continuidade e conseqüente sobrevivência a administração da natureza através das possibilidades técnicas e da constituição de modos de comunicabilidade para assegurar as sociabilidades e a legitimação histórica da pluralidade do conhecimento humano. Enfim, a tecnologia como ampliação do corpo pragmático tendo nas extensões técnicas de nossas mãos e mentes a requalificação da vida usando a linguagem como cimento determinante de um partilhamento de vida inexorável. Esse texto pretende discutir a existência humana tendo como referencias análises teóricas que priorizaram as conquistas técnicas ligadas às sociabilidades modernas e contemporâneas que têm as possibilidades de contato e comunicação no alvo das tecnologias de reprodução da arte e da vida, mas também da guerra e da morte.
A trajetória humana indica que os expedientes gestuais de ordem corporal se constituíram em proporções cênicas ao passo que a fala e a escrita viriam a se concretizar foneticamente enquanto objetos da imagem e da escrita fundando códigos e significações de um mundo múltiplo. Essas conquistas destinaram-se a deixar rastros primaciais da presença humana em todo planeta com a configuração de línguas diversas tanto escritas e imagéticas, tanto sonoras quanto fonéticas. As tecnologias de qualificação de códigos e símbolos do partilhamento social humano foram fundamentais na legitimação de nossa existência. Diante disso deve-se considerar que o movimento comunicacional dos sinais físicos: plástico-gestuais e sonoros ganhariam corpo para além de nossos corpos. Ou seja, como extensão do que somos na convivência de dimensões, emissões e recepções possibilitadas pela proliferação das tecnologias de reprodução e veiculação da cultura humana (Mcluhan:1969 e 1977).
Nessa linha consideramos que Walter Benjamin e M. Mcluhan, analistas de tempos e espaços distantes, ligados a uma modernidade tardia foram visionários ao destacarem as variáveis técnicas, da comunicação e da estética, enquanto elementos determinantes de novas sociabilidades. Deve-se acreditar que a contemporaneidade é caracterizada por sentidos inusitados de tempo e espaço proporcionados pela insurgência das novas tecnologias de transporte, comunicação e reprodução das coisas da vida (Harvey:1989). Benjamin, o alvo de nossas reflexões, percebeu ainda nas primeiras três décadas do século XX que a “reprodutibilidade técnica” da arte e dos objetos de comunicação seria o anúncio e a constituição desse novo tempo.
Benjamin, colado em seu contexto descobre-se impactado pelas tecnologias de reprodução dos objetos da vida e da estética e, escreve em 1936 o célebre texto: “A obra de Arte na Época de sua Reprodutibilidade Técnica”. Ao que parece, nem Benjamin nem os parceiros de sua época se aperceberam naquele momento para a importância das misteriosas reflexões que o texto continha. Com base na tecnologia, na comunicação e na estética de seu tempo o autor discute as técnicas históricas de reprodução das linguagens escritas e visuais sem deixar de lado a literatura e as imagens que transitariam da litografia à fotografia. Reconfigurando-se em novas mídias nos primórdios de uma era eletrônica que com a manipulação da fotografia, do cinema e da música dariam tonalidades diferentes às sociabilidades.
Enfim, nas primeiras três décadas do século XX a aura da vida real representada pela obra de arte estaria em xeque e discussão por Benjamin. Ou seja, qual expressão humana guardaria a originalidade e a autenticidade? Por outro lado, onde reside a aura essencial da vida que a arte clássica busca resgatar na realidade? Se é que essa presumida dimensão da existência pode ser facilmente reproduzida. Interessa aqui, que o autor constata no seu tempo uma ação tecnológica e cultural determinante apontando para novos sentidos, percepções e representações do movimento histórico da humanidade (p.227). O impacto das proposições pioneiras de Benjamin sobre os estudos ligados às humanidades e comunicabilidades na contemporaneidade pode ser atribuído ao crescimento e multiplicação da cultura eletrônica no decorrer do século XX levando analistas do período a reconhecerem a importância determinante de suas reflexões.
No preâmbulo do texto em questão o autor afirma que K. Marx foi capaz de estabelecer um prognóstico sobre o “futuro do capitalismo” que estaria preparando “as condições de sua própria supressão” através da “exploração do proletariado” (p.222). Infelizmente o autor não sobreviveu à II Guerra Mundial e morreu acreditando no “prognóstico” marxista que apontava para o fim do capitalismo e o sucesso da revolução proletária. Benjamin, diferente de seus companheiros da Escola de Frankfurt não teria a oportunidade de testemunhar o movimento histórico da Rússia Soviética transformando-se num inusitado “capitalismo de estado” (Bettelheim:1976:419). E, ainda na requalificação da opressão e da exploração no Ocidente, através de um novo período político-econômico que Habermas denominaria de “capitalismo tardio” (1980). Enfim, a cultura humana de natureza plural se transformaria através de uma forte presença tecnológica e de possibilidades muitas da reprodução da vida e de suas representações estéticas.
Benjamin saltaria de seu túmulo se soubesse das condições políticas do pós-guerra e da passagem do século XX para o XXI quando o fascismo, o nazismo e o comunismo que o mesmo conheceu, transformou-se. Importa, que o autor ao dedicar suas reflexões sobre as possibilidades de reprodutibilidades técnicas culturais do século XX, ancorou no século XXI sem bilhete de partida. Porém, com passaporte de entrada devidamente legitimado na contemporaneidade acadêmica. Importa mais ainda que Benjamin, morrendo em 1940, antes do fim da II Guerra e da proliferação de uma cultura científica e tecnológica visionaria as requalificações sociais desses novos contextos que apontariam para outros “modos de sentir” e construir a existência e, por que não o conhecimento acadêmico.
A genialidade e, a visão futurista de Benjamin também iria revelar-se em mais uma cilada da imprevisibilidade histórica marcada por um foco nebuloso motivado pelas novas possibilidades “técnicas” de reprodução da vida. Até então o complexo contexto histórico-sociológico, político-cultural, tecnológico e epistemológico que o autor vivia o levou a afirmar: “dado que as superestruturas evoluem muito mais lentamente que as infra-estruturas, foi preciso mais de meio século para que a modificação ocorrida nas condições de produção fizesse sentir seus efeitos em todos domínios da cultura” (p.222). Aí, o autor aponta para o valor que os bens culturais iriam adquirir em seu tempo através da “reprodutibilidade técnica” e, involuntariamente coloca esses bens na ponta de lança de um novo capitalismo que elegeria esses bens como matéria prima e produto de um tempo onde uma superestrutura política e imaterial acabaria por se impor.
Entretanto, nenhum desses desacertos históricos ou de seus acertos involuntários poderá retirar de Benjamin a “aura” maravilhosa do pioneirismo de suas constatações. Pelo contrário, o autor, para além de perceber o anúncio de uma era tecnológica marcada por uma crescente reprodução da existência e da estética da vida ressalta um novo olhar sobre a trajetória humana. Por outro lado, seu emblemático texto já sugere que para um maior entendimento da complexidade que o século XX passaria a desenhar, seria necessário um esforço epistemológico interdisciplinar. É digno de nota, o fato do mesmo transitar com desenvoltura por diversos compartimentos do conhecimento moderno. A saber, a epistemologia, a tecnologia, a física, a sociologia, a história, a psicologia, a psicanálise, a filosofia estética, a filosofia da linguagem, as ciências da comunicação etc.
Nesse texto ímpar de Benjamin tudo flui na direção da multiplicidade mutante de variados conhecimentos, visões e reproduções do mundo de seu tempo. Enfim, flui para uma dimensão epistemológica híbrida passível de contaminações teóricas entre os compartimentos acadêmicos das “ciências” das humanidades, das físicas, químicas e, quiçá, matemáticas, etc. Benjamin, para além de tanto, revela-se aí um analista enigmático e visionário apontando para comparações de práticas e técnicas médicas e culturais na tentativa de compreender seu tempo. Nesse sentido, afirma que a mágica de curar “um doente pela colocação das mãos difere da do cirurgião que pratica sobre ele uma intervenção” (pp. 242-243). Entenda-se a mágica ritualística das mãos ganha novidade com o exercício cirúrgico de ordem física e científica.
Benjamin, ao insistir na utilização dos conceitos de “unicidade” dos fatos reais e da “aura” também única da raiz matricial de sua reprodução reivindica aí a experiência inexorável de uma vida passível de reprodução, entretanto insubstituível na sua condição absoluta de ser. Se reportando ao registro e difusão de fatos na mídia impressa, onde a fotografia parece legitimar a verdade factível de reprodução o autor afirma: “A imagem associa (...) duas características da obra de arte, sua unicidade e sua duração, quanto a fotografia associa duas características opostas: as de uma realidade fugidia, mas que se pode reproduzir indefinidamente” (228).
Nessa linha, o autor imprime uma discussão epistemológica de longo alcance. Enfim, a unicidade da vida e suas representações estéticas guardam um “véu” e uma “aura” de sacralidade de uma pontual existência inexorável: a “realidade fugidia” que, não tem como ser refutada por suas reproduções técnicas. Isto, tanto nas imagens fixas capturadas pela fotografia, quanto nas imagens em movimento do cinema. Enfim, a dimensão concreta de uma vida experimentada e intuída não seria jamais substituída por reproduções tecnológicas ou pretensões teóricas e estatísticas que se desdobrariam na novidade das “massas”. Aí, Benjamin faz uma reflexão definitiva: “A adequação da realidade às massas, bem como a conexa adequação das massas à realidade constituem um processo de eficácia ilimitada, tanto para o pensamento quanto para intuição” (Idem).
Benjamin, saca que a alta modernidade marcada pela onipresença da tecnologia e da reprodutibilidade da vida e suas representações é “ilimitada”, socialmente, no que diz respeito à apreensão definitiva e única dos momentos pontuais da vida. Entretanto, adverte que com a inserção dessas novas possibilidades a humanidade passaria por alterações tanto sócio-estatísticas quanto estético-culturais. Enfim, nesse novíssimo contexto a vida cultural tenderia a ser múltipla, plural e diferenciada. Essa multiplicação, marcada pela pluralidade social e maciça recepção comunicacional, diz respeito à idéia de “massas” indicada pelo autor. Deve-se levar em conta que o autor ao defender a “aura” inexorável da vida primacial, diante de sua reprodutibilidade artística, articula uma interessante interlocução com a ciência emergente de seu tempo.
Para o autor as novas técnicas de reprodução da existência, também, “modificam a atitude da massa diante da arte”. Ou seja, ainda que a “massa”, segundo o mesmo, manifeste ser “reacionária” diante do exemplo clássico de um Picasso, mostra-se “progressista” diante da obra cinematográfica de Charles Chaplin (244). A partir daí, pode-se deduzir que Benjamin via a “massa” sócio-cultural de seu tempo na medida exata da “alienação” do conteúdo sacralizado do classicismo ocidental ainda que sensível ao “espírito crítico” que apontava para uma visão social “progressista”. Aí, pode-se constatar, mais uma vez, um Benjamin profundamente imerso no materialismo dialético, apesar das tantas intuições que o projetaria para tempos outros para além dele mesmo.
O maravilhoso mistério que esse texto de Benjamin abriga, diz respeito às intuições epistemológicas que o mesmo exala. Senão vejamos ao comparar o teatro com a emergência do cinema o autor ressalta o primeiro como a experiência da representação vivida e partilhada in loco, e o segundo como a reprodução técnica de representações da vida. É genial essa visada do autor defendendo que no teatro a “aura” da vida experienciada e, insubstituível depende de seu hic et nunc (aqui e agora). Ao passo que no cinema o hic et nunc do momento do registro reproduzível seria a representação multiplicadora de uma “realidade fugidia”. Enfim, o teatro teria como receptores um “publico” num contexto de lugar e tempo inexorável, onde o “culto” delimitava sua “aura” única (hic nunc). Enquanto o cinema teria como receptor e captador primacial um “aparelho” de registro técnico do contexto de uma nova vida que poderia ser tanto documental quanto ficcional passível de reprodução e massificação.
O autor, com suas incursões epistemológicas aparentemente fora de tempo, deságua em digressões de sólida coerência teórica para a compreensão da contemporaneidade. Para ele o cinema passaria a ser um elemento determinante para o desvelamento tanto do cotidiano de uma vida experienciada quanto da insurgência de novas ciências. Primeiro, o mesmo afirma que é preciso ter em conta: “a maneira pela qual o homem se apresenta ao aparelho” cinematográfico, acentuando sua “representação” no “mundo que o cerca”. Benjamin destaca ainda que, o conhecimento acadêmico de seu tempo, a exemplo da psicologia e psicanálise, foi impactado pelas possibilidades de registros do movimento da vida que o cinema proporcionou (pp.245-246).
A susceptibilidade de Benjamin ao associar a misteriosa multiplicidade das “realidades fugidias” às também múltiplas possibilidades de registros de detalhes macros e micros do movimento existencial através do cinema é genial. O autor intuiu que o “aparelho” de registro cinematográfico do movimento da vida possibilitaria a verificação acelerada de uma cena filmada com base em tomadas de imagens abaixo de 24 quadros fotográficos por segundo. Ao passo que o registro cinematográfico com base em quadros fotográficos para além dos 24 quadros por segundo possibilitaria a visão de um mundo movimentando-se com mais lentidão, oportunizando a observação e conhecimento das dimensões misteriosas de suas “realidades fugidias” (Idem).
Pode-se compreender que, para o autor essas possibilidades de desnudar o movimento da existência através do cinema apontam para a conquista de desvelar os “lapsos” escapados em cotidianos vividos “a olhos nus”. Enfim, só sobre os olhares do cinema seriamos capazes de verificar os “lapsos” fugidios do movimento de nossa complexa existência. Quem sabe, esses buracos negros antes inatingíveis digam respeito às tantas dimensões do inconsciente apontado pela psicanálise. Aliás, aí não residem dúvidas até porque para Benjamin: “o cinema enriqueceu nossa atenção por métodos que esclarecem a análise freudiana“ (Idem).
Nessa linha se o mercado cinematográfico passa a ser uma referência na compreensão da vastidão do humano, inclusive de seus desdobramentos sociais através da idéia de “massas” de Benjamin. Porque não lembrar de teóricos outros a exemplo de W. Reich que quase paralelamente a Benjamin visionou a idéia de “massas” e suas relações com o “estado” sócio-político do contexto. Reich, enquanto um pioneiro como Benjamim não relacionou a idéia de “massas” às possibilidades culturais ligadas a uma era eletrônica. Enfim, reservou-se a apontar a presença multiplicadora das subjetividades em franca constituição do sentido e idéia de massa social reservando-se ao mundo da psicanálise e da emergência do fascismo (1988:193-266).
Pode-se acreditar que, para uma maior compreensão das conjecturas sócio-culturais e históricas de Benjamin é preciso ter mais informações sobre sua vida, tempo e lugar. Nessa linha, Gershom Scholem, amigo e correspondente de Benjamin publica na década de setenta um livro dando conta de uma ampla e fecunda interlocução que os dois estabeleceram através de muitas cartas. Nessa obra, o autor afirma que “pouquíssimas pessoas guardam uma lembrança mais clara e detalhada de Walter Benjamin”. O prefácio do livro é datado e assinado por Scholem através de um registro histórico-temporal e geográfico revelador: “Jerusalém, fevereiro de 1975” (1989:9).
Enfim, nesse livro a comunicação entre Scholem e Benjamin revela uma ampla rede de contatos entre os intelectuais ligados ao judaísmo. O interessante é que a maioria deles nutria uma forte relação com os ideais do materialismo dialético ou estiveram profundamente ligados às grandes concepções do conhecimento da alta modernidade. A exemplo, de Marx, Freud, Brecht, Kafka, Eistein, só para citar alguns. Entretanto, o foco de nossas discussões tem como base o pioneirismo de Benjamin ao tentar compreender o mundo capitalista tendo como ênfase a reprodução técnica da existência representada com base na massificação de uma vida acelerada marcada pela presença tecnológica. Mais ainda, por uma estetização das guerras humanas que alimentariam o mercado das mídias de comunicação no decorrer do século XX.
Aqui, o que interessa é que as reflexões de Benjamin apontavam para um mundo futurista que o mesmo não iria experimentar apesar de destinar, involuntariamente, uma profunda discussão sobre a existência humana e cultural com a presença da tecnologia. Benjamin acreditou que nesse contexto de novas possibilidades de reprodução da cultura “as comunidades humanas” modificariam o “modo de sentir e perceber” a existência (p.227). Sem dúvidas as técnicas de reprodução das culturas, das sociabilidades e das estéticas do século XX denotariam mudanças determinantes na existência humana do contexto. Para o autor tudo isso seria desdobramento de uma nova percepção do mundo em inevitável cruzamento com também novas possibilidades do conhecimento político-acadêmico ocidental.
Ao apagar das luzes do emblemático texto, o autor fecha questão através de uma análise inusitada das novas sociabilidades ligadas às idéias de massas técno-culturais e, à estetização da guerra. Para tanto cita o “manifesto” de Marinetti, artista e ideólogo “futurista” profundamente comprometido com o fascismo italiano: “A guerra é bela porque reúne, para compor uma sinfonia, a fuzilaria, o fogo dos canhões, a pausa entre os tiros, os perfumes e odores da decomposição” (p.253). Benjamin eterniza sua genialidade ao apontar para proposições estéticas de seu contexto, ainda que as mesmas sejam contrárias aos seus projetos políticos. Ele saca o olhar e o desejo estetizante de Marinetti num cenário onde: a tecnologia desenha “novas arquiteturas, como a dos tanques, das esquadrilhas aéreas em formas geométricas, das espirais de fumo subindo das cidades incendiadas” (Idem).
Aqui, também em ritmo de epílogo, ressaltamos que Benjamin ao eleger o cinema como o agenciador estético mais determinante da cultura das massas continuaria como um visionário do contexto eletrônico da passagem do século XX para o XXI. Se não vejamos, atravessamos os últimos séculos, acreditando na supressão do nazismo, do fascismo e do comunismo soviético, através da vitória democrática ocidental representada pela política anglo-saxônica tendo como protagonista a participação heróica os Estados Unidos da América. Entretanto hoje, esses pretensos heróis dos últimos séculos, invadem países e destronam culturas em nome de uma civilidade e cidadania democrática de flácida compreensão no limiar da virada do milênio.
Esses fatos denotam que a contemporaneidade sociológica e, estética apontam as novas tecnologias como reveladoras de uma nova existência tanto política – cultural, quanto estética – diplomática e, acima de tudo bélica. Bélica no aspecto cultural e étnico e, também no aspecto físico e estético que pontuou o século XX com fatos e relatos fílmicos marcando presença no mercado eletrônico cultural do contexto. O cinema, a televisão e as tecnologias de informação e lazer digitais disponibilizam para os viventes da contemporaneidade, informações ao vivo e games (jogos) onde os conflitos humanos viram a matéria prima do produto final.
A violência humana passou a ser um elemento determinante tanto do mercado mediático quanto da estética eletrônica. Basta ver que as ações bélicas, promovidas pelos grupos ditos terroristas, nos primeiros anos do século XXI foram amplamente disseminadas como pérolas desse novo mercado. Do mesmo modo, a resposta bélica do Ocidente Anglo-Saxão através da invasão do Afeganistão e do Iraque denotou que as imagens sonorizadas das principais agências de comunicação constituíram-se na matéria prima do mercado de publicidade e comunicação do contexto contemporâneo. Aliás, quem assistiu ao vivo as ações do dia “11 de setembro de 2001” e, os ataques revanchistas contra o Afeganistão e, o Iraque pode testemunhar o caráter de espetacularidade e estetização da guerra atual.
Distante do conflito e diante do vídeo, o homem contemporâneo acompanha tudo na segurança de seu lar através de seus aparelhos eletrônicos. E, aí é difícil distinguir virtualidade e realidade. Dimensões de emissões de linguagens ficcionais e documentais e, acima de tudo midiáticas que invadem as novas subjetividades a nos tirar de tempo. Diante dos vídeos contemporâneos, contemplamos a veiculação dos fatos seduzidos por suas sonoridades e coloridos espetaculares como que hipnotizados pela máquina. É mera especulação assistida de um cotidiano que distancia os sentidos mais fundos de nossa humanidade. Ali, o sangue humano que corre parece não ser real. Ali, nada nos ameaça, pois estaríamos no mundo das possibilidades virtualizadas e estetizadas pela contemporaneidade.
Entretanto, sempre que nos descobrimos no lugar inexorável do aqui e agora exalamos reflexões e dúvidas sobre o lugar e tempo que habitamos. Onde estamos e que variáveis existenciais e culturais norteiam nossas vidas? Aqui, numa dimensão eletrônica marcadamente híbrida e conflituosa constata-se a presença determinante de uma tecnologia de novos contatos e interatividade social que pode nos colocar no coração inelutável do risco e da morte. Enfim, aqueles que habitam zonas de risco, a exemplo dos palestinos e libaneses nesse início de século XXI não se sentem confortáveis diante dos vídeos, mas na dimensão indiscutível de um inferno tanto virtual quanto estético a alimentar o mercado das mídias contemporâneas.
Ou seja, no lugar inelutável de uma vida contemporânea em constante risco. Foram-se os dedos e, também as mãos da modernidade que então restavam por ir com os anéis. Entenda-se, tudo que a modernidade construiu com base em uma convivência fraterna e igualitária tanto democrática quanto comunista foram para o “espaço”. Enfim, a igualdade e a fraternidade social da modernidade capitalista tomariam forma em novas estações sociais, para além de lugares e tempos. Nesse contexto inusitado foram-se os ouros dos anéis e as mãos e mentes de uma modernidade perdida reaparecem com o vigor bélico de uma contemporaneidade inusitada e perversa.
Daí, Benjamin estaria presente nesse aqui e agora que testemunha a intensificação entre o conflito do Estado de Israel e o os Palestinos. Com Israel utilizando o suporte tecnológico anglo-saxão contra palestinos que destinam seus pobres corpos municiados enquanto armas contra um Estado judeu dotado da sofisticação bélica da tecnologia dos “aliados”, tendo como protagonistas os “americanos”. Só que a presença das reflexões de Benjamin aqui, é marcada por um barulho fora de tempo e sentido. Agora os judeus, de vítimas históricas com base nos preconceitos nazistas, passam a serem os algozes contemporâneos que têm nos palestinos e Islâmicos seus alvos e suas vítimas.
Como entender um barulho dessa dimensão histórica? Como entender um contexto com tantas tonalidades e perversas novidades? Como entender um filósofo e analista de um determinado tempo que conseguiu estar para além de seu tempo, lugar e, de si mesmo? Entenda-se, aportamos no enigmático século XXI, precisamente no mês de julho de 2006, de carona num bilhete de partida com base num texto de Walter Benjamin datado de julho de 1936 do século XX. As célebres proposições do autor reverberam-se na contemporaneidade com a força de suas reflexões apontando para uma maior compreensão do nosso aqui e agora.
Antonio Jorge Victor dos Santos Godi
