Um filme sobre a infância para adultos. É assim que o Cao Hamburger, diretor de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, define seu mais recente trabalho no cinema. Responsável por Castelo Rá-Tim-Bum, O Filme e atualmente no comando da série Filhos do Carnaval, da HBO, o cineasta veio a Belo Horizonte divulgar seu segundo longa-metragem, que estréia neste dia 3 de novembro em todo o Brasil.
O filme conta a história de Mauro (Michel Joelsas), um garoto de 12 anos que é deixado aos cuidados do avô pelos pais quando eles precisam fugir da perseguição da ditadura militar. O ano é 1970, em plena Copa do Mundo. Para Mauro, a turbulência política em que vive o país é o que menos importa. O bairro paulista do Bom Retiro é um mundo novo a ser explorado em meio à torcida pela conquista do tricampeonato. Aquela comunidade, onde judeus, italianos, gregos, árabes e brasileiros convivem, também é uma espécie de exílio, onde o menino faz amizades e vive aventuras enquanto aguarda os pais retornarem das “férias”. E é nesse momento de sua vida que ele descobre a vocação para ser goleiro: o jogador diferente do time, que está sozinho debaixo do gol e não pode falhar.
Nesta entrevista exclusiva Hamburger fala sobre o filme, a produção, suas influências, futuros projetos e, claro, futebol.
Você diz que o filme é sobre o exílio e as várias formas de exílio. Quanto disso vem de uma experiência pessoal?
Acho que, nesse sentido, muitas vezes já me senti exilado. Mesmo dentro do próprio país, dentro da própria casa, acho que às vezes a gente fica se sentindo... E às vezes é até bom, né, se exilar um pouco. O valor que a solidão tem às vezes é importante para o nosso crescimento. E quando eu estava fazendo as primeiras idéias do filme, eu estava morando na Inglaterra, uma espécie de... Uma situação de estrangeiro. Acho que isso tem bastante a ver com a história toda do filme.
Você possui uma ligação pessoal com a época da ditadura, seus pais foram presos etc. Assim, a história de Mauro possui um lado autobiográfico, apesar de não ser uma autobiografia. Filmá-la foi um ato de catarse ou nostalgia?
Nostalgia, não. Eu não acho que seja um filme nostálgico. Eu acho que é um filme que reflete mais sobre esse momento de crescimento que a gente tem nessa fase da vida, entre a infância e a adolescência, esse rito de passagem, que às vezes, numa situação limite como essa que passou o personagem, acelera, né... Ou aguça, agudiza esse momento. Mas eu não acho que foi pessoalmente uma catarse para mim desse assunto específico. Mas acho que foi um mergulho nessa fase da vida que é tão importante para a nossa formação, tanto psicológica quanto emocional. Agora... Tem alguma coisa aí que você falou que está pegando... Uma pergunta diferente, essa. Eu acho que falar sobre isso, sobre esse período da vida, acho que muitas vezes pode vir a ser não uma catarse, talvez seja um pouco forte, mas... É forte falar sobre esse momento da vida, independente de qual seja a história. A minha história tem algumas coisas semelhantes com a do menino, então, para mim foi muito forte. Realmente forte. Mas eu acho que as pessoas quando assistem – mesmo que não tenham identificações objetivas, como ter nascido nessa época, como ter tido os pais envolvidos de alguma forma nesse assunto – eu acho que elas se identificam e também passam por uma experiência forte assistindo, por ser um momento tão importante, tão formador e tão emocionante para as pessoas.
Este é seu primeiro “filme adulto”, mas ao mesmo tempo ele possui vários elementos infantis, como as brincadeiras etc.
Sim, do universo infantil. Eu acho que as crianças a partir de dez anos vão gostar bastante, vão entender do jeito deles e tal. Mas é um filme que eu fiz para ser para adultos.
A gente pode dizer que, na verdade, é um “filme infantil para adultos”?
Não, eu acho que é um filme sobre a infância para adultos. Sobre a infância e essa passagem da infância para a adolescência, para adultos e jovens.
Assistindo ao filme, me veio à memória o universo de Charles Dickens, como se Mauro tivesse um pouco de Oliver Twist: é um garoto abandonado que vive aventuras e tenta se readaptar, isso num ambiente pesado, melancólico e mais realista. É uma coincidência ou uma inspiração?
Não, não foi uma inspiração... Na verdade, eu nunca li. Já vi filmes, mas eu nunca li. Mas eu acho que essa história é universal.
Quais influências de diretores e tipos de cinema você vê no seu filme? Como elas o ajudaram a fazê-lo?
Olha, eu sou um cara que sofre influências de diversos tipos de cinema. Sempre fui assim, desde quando era jovem, eu assistia muitos filmes de diversos tipos. Eu era um rato de cineclube, ao mesmo tempo em que adorava assistir filmes de Spielberg, westerns. Desde Bergman a Charles Chaplin, de Spielberg a Kusturica, os filmes tchecos, muitos filmes do leste europeu. Então, eu tenho uma formação muito eclética, e cheia de buracos, né... Eu trago isso para todos os meus trabalhos. Agora, nesse filme específico, eu vejo um pouco do... É engraçado, as coisas que eu vejo são mais escondidas até, nem são muito claras, as referências. Mas atualmente eu tenho gostado muito do cinema do Lars von Trier, por exemplo, do Iñárritu, do Meirelles. É o tipo de filme que eu tenho mais me identificado. Então, deve haver alguma coisa, talvez na forma nem se veja muito, mas acho que tem um pouco. E uma frase do Wim Wenders – eu acho que o Wim Wenders é um cara que me influenciou bastante nesse filme, principalmente numa frase que ele falou, e depois pensando no Paris, Texas, por exemplo, eu acho que tem a ver. Eu vi ele falando sobre cinema e ele falou que os filmes que ele acha mais interessantes são os filmes que deixam um espaço entre os fotogramas, que deixam um ar entre os fotogramas. E eu interpretei isso como o espaço para o público pensar sobre o que ele está vendo e sentir. O filme não ficar te direcionando sempre, deixar conclusões, não tem uma certa ou uma errada, deixar espaço para sentir. Então, eu acho que o filme tem muito silêncio, ele deixa as coisas, ele explica as coisas não A + B = C, ele sugere. Isso vem muito dessa entrevista que eu vi com o Wim Wenders e um pouco do cinema dele também.
Você foi goleiro?
Eu fui goleiro. Bom goleiro, bom goleiro...
Foi na sua infância, na juventude...?
Na juventude. Na infância e até, sei lá, uns 20 anos.
Futebol amador ou profissional?
Amador, amador...
Era goleiro dos bons ou já tomou seus frangos?
Ah, muitos! (risos) Essa é a vida de goleiro!
Para qual time você torce?
Sou santista.
Você considera a função do goleiro em um time semelhante a do diretor em um filme, ele que segura as pontas e é o único que não pode falhar?
É... Nesse sentido, é verdade.
E você preza muito o trabalho em equipe, certo?
Muito. Cinema é de equipe, sempre é. Nas qualidades e nos defeitos. Mas também o diretor dita muito o caminho a ser seguido. E eu procuro sempre envolver a equipe. Eu só me sinto confortável quando eu sinto que a equipe está tão envolvida no projeto quanto eu. E nesse filme rolou um envolvimento muito grande. Sou muito grato à equipe pela concentração que eles tiveram. Voltando nesse lance da Copa de 70, a gente se concentrou tanto para fazer esse filme, que eu agradeço muito à equipe. Eu tenho dedicado, em todas as sessões antes da estréia, à equipe e ao elenco. Ao elenco primeiro e à equipe.
Como você conseguiu encontrar crianças tão boas de serviço quanto o Michel e a Daniela Piepszyk (que interpreta a vizinha Hanna)?
O Michel eu não tive muita escolha, né... Eu tive que ficar com o cara, né... (Neste momento, Cao vira-se para o banco de trás da van, onde o ator Michel Joelsas brinca com uma revista de atividades.) Um cara chato, desconcentrado, sem talento... (risos) A mãe, então... (A mãe de Michel repete lá de trás: “A mãe, então...!”) Olha, foram mais de mil testes. E muito tempo de testes, mais de cinco meses procurando. Não só procurando. Procurando e, os que a gente ia selecionando, trabalhando, conhecendo eles. E o momento mais importante é o momento da escolha. Isso é o mais determinante. Você escolher certo. Escolher a melhor pessoa que você tem. E também não se apressar: se não tiver, continuar procurando. E depois que eu decidi que o Michel era o cara que eu queria que fizesse, e a Dani também, eu ainda passei quase um mês, eu acho, conhecendo os dois. Convivendo com eles e conhecendo eles. Porque é um trabalho muito duro. Então, eles têm que gostar muito, querer muito e, ao mesmo tempo, entender muito o processo, tem que saber se eles vão agüentar. É muito importante para mim: tanto quanto o talento e o carisma, é o caráter. Então, se for uma pessoa muito egoísta, muito mimada, muito chata, eu prefiro não trabalhar. Saber trabalhar em grupo, ter humildade de trabalhar em grupo. Precisa saber se a família tem a cabeça legal, porque a gente coloca a criança num foco de atenção muito grande. Então, a família tem que ter uma boa cabeça, a escola também. É um pacto entre a gente, a produção, eu, o próprio ator, a família e a escola. É um processo demorado e muito cuidadoso.
No filme, você dá uma atenção especial ao modo de viver dos personagens judeus. É uma cultura que no cinema brasileiro é pouco explorada. Como você trabalhou na pesquisa e com os atores para as cenas da comunidade?
Primeiro, comecei chamando um escritor que tivesse morado no bairro e que trouxesse essa vida toda. O Cláudio Galperin (co-roteirista) trouxe muito da vida do bairro naquela época, e os personagens que ele conhecia, da família dele, dos vizinhos e tal. Ele trouxe muito esse cheiro do Bom Retiro. Isso, então, vem desde o roteiro. Na hora de produzir, eu optei por focar mais os atores. Aproveitar o máximo que eu conseguisse de atores, ou novos atores, ou pessoas da comunidade, que tivessem essa cultura. E também na hora de fazer a direção de arte, a fotografia e tal, a gente trazer isso... Não só a reconstituição perfeitinha e corretinha, mas trazer o clima do lugar. Eu acho que foi uma mistura de tudo.
Fale um pouco sobre a recriação da época, dos anos 70.
Quem comandou foi o Cássio Amarante, que é um diretor de arte muito conceituado, já fez trabalhos importantes, como Central do Brasil, Abril Despedaçado, entre outros. E eu acho que o trabalho dele e da equipe dele, incluindo a figurinista (Cristina Camargo), foi muito sensível, muito generoso também. Porque era fácil ele ficar chamando a atenção, falando “Olha que calça legal que eu arrumei, olha a cor dessa parede dos anos 70,” e ia ficar uma merda. Ele soube deixar que a história... Isso foi um pacto que a gente fez também, uma conversa que a gente teve com a equipe: o importante era os personagens e a história, vamos trabalhar tudo e valorizar isso. Então, acho que o Cássio e a equipe dele conseguiram ajudar a história, contar a história através dos objetos de modo muito delicado, sem ficar chamando muito a atenção. E às vezes você até esquece que aquilo tudo é de época.
Achei interessante o uso das TVs antigas. Eram aparelhos que realmente funcionavam ou vocês usaram efeitos digitais para inserir as imagens dos jogos na tela?
Funcionavam, e davam muito trabalho. A gente perdeu muito tempo com eles, porque quebravam direto. Era um saco, mas valeu a pena.
Você teve que cortar alguma cena que queria muito ter mantido?
Ah, sempre corta, né? Mas não lembro de uma que tenha doído muito. Mas daqui a pouco vai ter no DVD, as cenas cortadas.
Cite três cenas do filme: a que você achou mais difícil de fazer; a que você mais gostou de fazer; e a que você mais gostou de ver pronta na tela.
Tiveram duas: uma que tinha 500 figurantes e outra que era só o menino no apartamento, que é tão íntima, que também foi muito difícil. Não tenho uma cena preferida, não... Bom, teve uma que surgiu dos testes com as crianças que ficou muito legal, que é quando elas dançam a música do Roberto Carlos. Essa idéia não estava no roteiro e eu acrescentei no meio dos testes com o elenco infantil. E a gente brincava de dançar e tal, e aí veio essa cena que ficou muito bacana.
Você já está pensando em futuros projetos?
Tem alguns, estou estudando algumas idéias para cinema e para televisão. Para televisão, a gente está esperando o sinal verde para fazer a segunda temporada de Filhos do Carnaval, da HBO. E para cinema estou desenvolvendo duas histórias paralelas, vou ver qual que eu faço. Uma é mais psicológica e a outra eu não posso falar muito, porque está no começo da pesquisa.
Quais filmes você indica para quem for ao cinema e gostar de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”?
Quando Meu Pai Saiu em Viagem de Negócios, do Kusturica, Kamchatka (filme argentino, de Marcelo Piñeyro) e Machuca (chileno, de Andrés Wood).
