Palestra do filme "Pro dia nascer feliz" realizada no Colégio Estadual Luís Viana no turno vespertino.
<João Sampaio>: Boa tarde a todos!
<Platéia>: Boa Tarde!
<João Sampaio>: Primeiro eu gostaria de agradecer a vocês, todo mundo que está presente aqui hoje! Dizer que esse é o início do Projeto Lanterninha. Eu sou João Carlos Sampaio. Eu sou Jornalista, Crítico de cinema aqui da cidade, e vou ficar como mediador dessa mesa, que está composta, aqui, pelo diretor de vocês, Professor Renan, aqui ao meu lado eu tenho a Maria Laura que é uma educadora. Ela veio de São Paulo pra conversar um pouquinho com a gente sobre questões pedagógicas. Aqui, vocês já viram na tela, a Valéria Fagundes, que é estudante, de Pernambuco, do interior, da cidade de Manari e quando ela fez o filme, ela era uma estudante secundarista, atualmente está na Universidade e hoje ela vai falar um pouquinho dessa experiência e o que é que o filme fez e mudou na vida dela. E ali na ponta a gente tem o diretor do filme que vocês acabaram de assistir, que gostaram e aplaudiram, o João Jardim, que é documentarista lá do Rio de Janeiro, e ele também veio pra aqui, pra estar aqui com a gente hoje conversando sobre o filme. Eu vou propor o seguinte: cada um aqui vai falar um pouquinho e depois vamos abrir pra perguntas para ouvir vocês também falarem, perguntarem a respeito do filme. Está bom? Vamos lá! Vou começar passando a palavra aqui pro diretor de vocês, o Renan, professor daqui da escola que vai falar um pouquinho sobre a acolhida do Lanterninha aqui na escola, a importância disso e o esforço que a escola está fazendo também pra inserir o Projeto Lanterninha dentro da estrutura didática normal de aula. Por favor, Professor Renan, fala um pouquinho pra gente sobre a vinda do Lanterninha aqui pra escola, e o que significa pra o colégio e pros alunos.
<Prof. Renan> Olha, eu acho que o cinema é uma forma de comunicação fantástica. Eu sempre fui fã do cinema, como forma de comunicação, de documentação, de enfim... Eu me lembro que quando eu iniciei meu curso de graduação na Universidade na época da ditadura militar, uma das formas que a gente bolou de reação foi a fundação de um cineclube, o cineclube na época se chamava Walter da Silveira, lá na Escola de Economia da UFBA. Enfim, eu considero, eu vejo com prazer e com muita honra que uma atividade dessa, de uma área como o cinema, seja colocado aqui pra vocês. Eu acho que o cinema é fundamental, o século XX é o século do cinema, então, eu não sei mais o que dizer porque, pra mim, minha infância toda, a minha juventude, até hoje em dia, eu vivo o cinema, e infelizmente não vivo o teatro como gostaria de viver porque o cinema é mais fácil, a verdade é essa. Eu agradeço a vocês pela atenção e faço votos que o Projeto Lanterninha se instale e tenha todo o sucesso aqui na Bahia e em Salvador também.
<João Sampaio>: Eu queria ouvir agora o diretor do filme. Por favor João, eu queria que você comentasse um pouquinho sobre o filme e sobre a sua participação e a do filme no Projeto Lanterninha.
<João Jardim>: Bom, a vontade de fazer esse filme, ela surgiu de dois lugares, né? E eu acho importante falar isso, porque isso é uma pergunta que sempre vem, não é? Logo no princípio. A primeira coisa foi de dar a voz ao jovem. Pra ele poder dizer o que ele pensa da escola. Então a primeira idéia do filme, era que, na verdade só houvessem jovens, meninos e meninas, entre 14 e 17 anos falando o que pensam da escola e da vida deles dentro da escola. E logicamente a idéia desenvolveu pra muita coisa. Isso porque eu estava pesquisando um outro assunto com jovens, mas quando eu comecei a ouvir o que eles tinham a dizer sobre a escola e sobre o lugar onde eles passavam metade da vida deles, naquela faixa etária, e eu falei: ‘Pô, mas isso precisa ser ouvido, a escola precisa ser pensada a partir do ponto de vista deles’, não é? Porque justamente assim, muitas das questões, sobre as quais a gente lê no jornal, todo dia, ou quase todos os dias, em relação às dificuldades da educação, elas de certa maneira, passam por essa crise, por esse momento tão forte na vida de todos nós que é a adolescência, não é? Vamos dizer... que é amadurecer, que é crescer dentro de um país com tão poucos valores, quanto o Brasil, não é? Então essa foi a primeira idéia. Logicamente que depois a idéia foi se modificando muito e eu fui percebendo que haviam várias outras nuances, que é a necessidade de colocar o professor, enfim...mas eu acho que isso é muito interessante, por isso que eu to falando disso, à medida que, a primeira idéia que é a idéia que eu acreditava, ela foi se modificando muito. Isso é muito bom! Você estar aberto a deixar a sua idéia ir mudando, não é? Como eu fui deixando a idéia se modificando e ir se acertando. Mas eu acreditava muito nessa idéia pelo segundo motivo que ela existe que é o fato de que eu acho importante fazer coisas diferentes, coisas pra melhorar a situação ou o que acontece dentro das escolas. Pra entender por que as pessoas não aprendem. E pra fazer com que se reflita sobre isso.
Porque eu acho que o filme, ele é um pouco sobre a questão do desperdício. O desperdício de pessoas, do tempo dos professores, dos professores e dos alunos também, que poderiam estar tendo mais perspectivas de vida se tivessem conseguido aproveitar melhor aquele tempo que eles passam ali dentro da escola.
Então eu acreditava dar uma contribuição pequena, por menor que fosse, pra se refletir sobre isso. Mas acho que principalmente, é a junção das duas coisas. Perceber onde tem um bom filme e essa vontade de mudar as coisas. Mas, enfim, acho muito bom ouvir o que vocês têm a dizer. Continuo um ouvinte atento, então, daqui a pouco a gente vai ouvir as perguntas e eu quero que vocês também digam o que vocês pensam, o que vocês tem a dizer sobre o filme, mesmo aqueles que não gostaram.
<João Sampaio>: Vou passar a palavra agora pra professora Maria Laura que é educadora, tem mais de 20 anos de serviço prestado à PUC de São Paulo. Hoje ela está atuando na Fundação Carlos Chagas, pesquisadora Sênior, e vai comentar um pouquinho pra gente das impressões que ela tem do filme e até da perspectiva desse projeto, professora, que agora a senhora já conhece.
<Maria Laura>: Bom, boa tarde a todos!
<Platéia> Boa tarde!
<Maria Laura>: Estão me ouvindo bem?
<Platéia>: Estamos!
<Maria Laura> Então, está bom! Eu quero primeiro agradecer o fato de estar aqui. Eu tô muito contente. Engraçado... Quando eu assisti a primeira vez o filme do João, faz uns dois anos, por aí. Minha filha e meu neto me convidaram meu neto jovem, adolescente. Eu falei: ‘Gente! Que coisa incrível! É igual o que esses meninos todos, que eu faço pesquisa na Fundação Carlos Chagas, e que eu ouço a criançada, a moçada toda... É isso! É isso que eles pensam, que eles querem’. Eu achei absolutamente maravilhoso isso tudo que ele fez e com certeza, com muita sensibilidade, muita arguidade, muita percepção do que realmente os jovens pensam da escola. Isso neste filme, imbuído no Projeto Lanterninha, que eu quero dizer pra vocês, que eu li a orientação pedagógica, por isso que eu fiz roteiro hoje cedo, não é? Como professora, caxias, vai lá e faz o roteiro porque fizeram uma orientação pedagógica, uma proposta, eu fui lá, tal... Mas nessa orientação pedagógica, tem todos os filmes que vão aparecer nesse projeto e eu fiquei absolutamente encantada! Porque hoje nós estamos vinculando o filme com a escola. Mas existem alternativas incríveis, vocês vão se beneficiar disso, com certeza, que fala do jovem e não só da relação que estabelece com a escola, com os professores, mas com a vida. Vários, vários temas que vão se seguir. Eu acho isso fundamental! Muito, muito importante! Eu fiquei muito encantada, mostrei pra várias colegas, pra vários alunos e todos ficaram muito encantados! Então, o que o João estava dizendo? Que os jovens pensam da escola? Meio complicado, meio complicado... Dependendo de onde eles surgem, de onde eles estão, muda um pouco a percepção, a expectativa, o que eu chamo de representações sociais. Mas, de qualquer maneira, a primeira pergunta que tinha lá na orientação pedagógica (risos): “Qual é a dinâmica importante pros jovens, na escola?”. Pra todos eles é fundamental. Depende do jeito que eles vêem a possibilidade de aproveitamento da escola, mas nunca deixa de ser fundamental. Isso que vocês viram no filme: o menino lá, da Valeria, que ela estava lá, e ela que se forma nessa condição, o menino do Santa Cruz, o menino do Rio de Janeiro, mesmo que não demonstre tanto, né? O que o do Rio de Janeiro não demonstrou tanto. Mas de qualquer maneira a escola desempenha um papel fundamental. Nem sempre atende todas as expectativas dos alunos e isso a gente não pode dizer que é só por culpa do professor.
Eu acho que é toda uma estrutura de sociedade que a gente tem que rever, reconsiderar. E vocês, de escola pública, têm uma coisa importante que vocês tinham que lutar: por mudar essa concepção. No Brasil, o público não presta. Concordam? Tudo que é público não presta. O médico, o serviço de saúde, não, não presta. Então, a escola pública vai prestar? Também não. Então existe já esse de preconceito, essa representação criada do público. Cabe a nós, modificar essa representação, que eu acho que ela muitas vezes, é parcial. Existem muitos professores absolutamente conscientes, dedicados, maravilhosos, que se dedicam mesmo. Existe toda a infra-estrutura que não suporta, muitas vezes, boas intenções, mas eu acho que depende de nós mudarmos essa concepção toda.
Então o filme mostra isso: diferentes realidades, diferentes concepções. Isso falando da escola. Quanto menos o aluno tem possibilidades econômicas, mais ele valoriza a escola. Você pergunta: “O que é bom pra o seu futuro?”. Escola, educação. Alguns chegam a dizer: “O que significa a escola pra você?”, isso nas minhas pesquisas, “Para ser alguém na vida”. Muitos filhos de pais analfabetos, muitos filhos de empregadas domésticas, muitos filhos de motoristas de ônibus, corre pra lá, pra cá, almejam ter uma profissão, digamos, menos preconceituosa, no nosso mundo, e mais reconhecida, porque carrega uma bagagem de escolaridade. Isso é fundamental. O professor. O que você acha o professor ideal? O normal é dizer “aquele que ensina, que dá a lição direitinho, que corrige nossos erros”, tal. Numa recente pesquisa, isso vai pra 25%. 75% ampliam a expectativa. “É aquele que ouve a gente, que escuta os nossos problemas, que nos dá conselho”. “Adoro!” – um deles – adoro o professor de Geografia!”. Porque vê o stress que eu tenho no trabalho, pergunta, vem aqui e tal. No dia seguinte pergunta se foi resolvido, dá conselho, no começo da aula. Isso tudo é uma exigência para o professor. São alunos que não tem possibilidade de ter um acompanhamento fora da escola, como mostra o João, da menina que não vai falar com o menino que pede esmola porque ela tem ioga, ela tem natação, isso que vocês viram aí, exatamente, tem terapia. Coloca tudo na escola. É justo, também, pedir isso tudo ao professor? O professor está formado pra isso? Ele tem condições administrativas, estruturais pra isso? É justo? Ou é justo apenas cobrar que ensine, ensine, ensine pra passar no vestibular, como é o caso dos meninos que tem todas as possibilidades fora da escola? Então tudo isso, gente... não estou questionando, eu estou colocando questões pra nós refletirmos juntos. Eu acho que isso tem que ser uma reflexão que a gente tem que fazer e se achar que a escola tem que ampliar, as possibilidades de auxilio ao aluno, como é o caso desse projeto, o Lanterninha, que é maravilhoso, nós temos que lutar pra que outros cheguem, outros venham. E como é que se luta? Pedindo horário, de conversa com o professor, diálogo e coletivo. Tem que ser uma programação coletiva. Converse com os colegas, vejam que essa sociedade é desigual. E ela é desigual, por quê? Porque tem fatores concretos que a fazem desigual, não é porque a gente quer. Muitos querem muitas coisas, mas a sociedade, muitas vezes, impede por vários mecanismos de restrição. Então eu acho que na escola que vocês estão, jovens, é de vocês o papel de rever muitas coisas e ampliar as possibilidades, não apenas aprender, tem que ser competente, sim, pra enfrentar essa sociedade atual, que não é fácil, tem que ser competente, tem que saber, tem que ser preparado, mas também tem que ser consciente, que nós não estamos aqui, naquela modernização, nem pós-modernidade como querem as pesquisas eurocêntricas e as pesquisas americanas. Nós estamos em sociedades desiguais e diferenciadas. Aqui... Nordeste, Sul, São Paulo. Três mundos, três mundos! Escola pública, escola particular, escola de classe e escola de periferia. Consciente que isso é uma realidade brasileira que a sociedade atual, pra nós é uma sociedade diferenciada. E cabe a vocês hoje, hoje, que dessa idade, maravilhosa, que vocês estão estudando com essa possibilidade que muitos também não têm. Estudando, conversar com os professores, tocar pra frente, pra que isso seja conscientizado minimamente minimizado, com uma sociedade mais justa, mais igualitária, mais moderna, como querem todos os modernizadores do Brasil e do mundo. Muito obrigada, gente!
<aplausos>
<João Sampaio>: A gente vai ouvir agora a Valéria Fagundes que como eu falei antes é estudante como vocês e vai contar um pouquinho da experiência dela e o que é que o filme mudou na vida dela, desde que ela fez o filme até agora. Por favor, Valéria.
<Valéria Fagundes>: Boa tarde a todos!
<Platéia>: Boa tarde!!
<Valéria Fagundes>: Quero dizer que é um prazer estar aqui e que fiquei surpresa com a reação de vocês e com o comportamento principalmente (risos). Porque geralmente quando a gente pensa que jovem está no cinema é só bagunça... e não. Aqui foi o contrário. Então eu fiquei muito feliz por isso. Parabéns a vocês pelo comportamento. Deixa eu ver por onde eu começo... Bom, como vocês viram, eu participei do documentário. Naquela época eu tinha 16 anos morava lá em Manari, mas como vocês viram, na época não existia ensino médio, então a gente tinha que se deslocar até uma cidade vizinha pra poder estudar. Hoje eu tenho 20 anos não estou mais em Manari, já terminei o ensino médio, estou cursando a faculdade de jornalismo, estou morando em Recife, trabalhando também, estudando e é isso aí. Muita coisa mudou na minha vida, quer dizer, tudo mudou, não é? O filme abriu as portas pra mim. E eu estou aqui aberta a perguntas tanto eu como todo mundo que está aqui. Qualquer coisa...
<aplausos>
<João Sampaio>: Bom gente... E agora estão abertas as inscrições. Quem quiser fazer alguma pergunta, por favor, só é levantar a mão que a gente está com os microfones, passa pra vocês começarem a conversar aqui com o pessoal da mesa.
<Aluno>: Meu nome é Romério. Eu queria saber qual a reação das autoridades públicas ao ver o documentário? A situação das escolas?
<João Sampaio>: Eu vou passar a pergunta pro João Jardim que talvez já tenha visto alguma autoridade assistindo o filme.
<Professora>: O que mudou nas escolas depois desse documentário, não é?
<João Jardim>: Não... Eu acho que o documentário não muda nada, infelizmente. Ele muda no sentido que as pessoas têm uma visão mais emotiva sobre uma questão que precisa ser modificada. Mas eu acho assim, eu não percebi, por parte das autoridades públicas, como ele colocou, uma receptividade muito grande ao filme porque, na verdade, eu sinto que a maior parte teve uma: “ah... o filme fala daquilo que todo mundo já sabe”. Então muito poucas autoridades públicas tiveram interesse de ver o filme. A gente teve até chance de mostrar o filme pro Ministro da Educação, Fernando Haddad, que terminou o filme e falou: “Nossa! Mas dá pra perceber que é um problema difícil de resolver, não é?” (risos). Mas eu acho que existe todo o interesse de pensar, que o filme serve pra muita coisa, mas o que eu sei que ele provocou de verdade foi a reforma da escola da Valéria, foi a reforma da escola de Duque de Caxias (risos). Ele fez muito bem à vida das pessoas que estão no filme, pelo menos a uma parte delas, mas com relação a uma coisa objetiva, eu não posso especificar. O que eu posso dizer é que muita gente que viu o filme, ele foi visto por muita gente, e continua sendo visto, se conscientizou de uma maneira emocional sobre várias coisas e eu acho que isso é muito importante na modificação de comportamentos.
<Carol>: Meu nome é Carol, eu sou do Projeto Lanterninha. Muitos de vocês já me conhecem, eu estive em sala de aula. Valéria, qual foi a maior dificuldade que você encontrou, na época de estudante do ensino médio, em Inajá?
<Valéria Fagundes>: Eu encontrei varias dificuldades tanto pela questão de transporte, não só eu, como todos os jovens que moravam em Manari porque como lá não tinha ensino médio, a gente tinha que ir até Inajá pra poder estudar e, na maioria das vezes, quando a gente chegava lá, as aulas estavam muito chatas, ou o professor não ia. Lá a gente encontrava preconceito porque nós éramos de outra cidade e as pessoas que moravam lá pensavam que nós éramos inferiores. Várias dificuldades. Dificuldades de relacionamento, de encontrar amigos que... Porque desde criança, desde que eu me entendo por gente, que eu tento mudar o entorno da realidade em que eu vivo, então é muito dificultoso você encontrar pessoas que também se sensibilizam com essas causas sociais, principalmente numa cidade que as pessoas ainda pensam muito pequeno sobre as coisas. Então, essas foram umas das dificuldades.
<João Sampaio>: Qual é a próxima pergunta? Por favor, se apresente e faça a pergunta.
<Aluna>: Boa tarde! Eu me chamo Alda. Gostaria muito de saber o porquê do Projeto Lanterninha? Esse nome surgiu do quê?
<João Sampaio> Ótimo! Eu vou responder a pergunta. É o seguinte: Lanterninha, pra quem não sabe, era aquele funcionário do cinema, que era um funcionário como hoje tem o bilheteiro, como hoje tem a pessoa da limpeza. Antigamente também tinha um funcionário que era o cara que tinha uma lanterna na mão pra conduzir as pessoas que chegavam atrasadas no cinema. Como estava escuro, o Lanterninha ia lá e ajudava a pessoa a encontrar o seu assento. E a idéia do Projeto Lanterninha é essa, meio que mostrar pra vocês um caminho que a gente quer que depois vocês sigam. Esse caminho é o do Cinema, é o do cineclubismo. Então a gente quer ser só o lanterninha apontando um caminho pra vocês e a gente quer que vocês continuem depois. A idéia é essa. Tem um site que está no ar, quem quiser anotar o nome é www.projetolanterninha.com.br, lá tem muitas informações sobre todas as ações do projeto, entrem e confiram. Bom, a próxima pergunta?
<Professora>: Aqui! Não é pergunta. Boa tarde, gente! Boa tarde pros alunos! Eu sou professora de Geografia daqui.
<João Sampaio>: Professora, desculpe, seu nome?
<Professora>: Moema. Na verdade eu vou iniciar falando que eu estou vislumbrada e estou felicíssima, pelo Luis Viana estar podendo receber vocês e dizer Valéria, que eu já passei por isso. Eu fui professora também de alunos que moravam ou estudavam na zona rural, em outras cidades e que, na verdade, eram desacreditados. Não confiavam neles e a achavam que eram incapazes ou inferiores e, na verdade, hoje eu tenho alunos que estão fazendo faculdade, são profissionais e são maravilhosos. Eram alunos especiais e que eu guardo no meu coração. E quanto aos outros, eu devo dizer que esse momento aqui pro Luis Viana é um momento especial porque a gente vê que as realidades, as perspectivas são tanto pra alunos de colégios estaduais ou colégios públicos, como também os problemas existem também para alunos de colégios particulares. Então vocês adolescentes tem essa responsabilidade de saber o que querem pra si mesmos e saber como mudar toda essa realidade, mas que os problemas existem em todas essas fases, em todos esses locais. Então muito obrigada por vocês estarem aqui e gostaria muito que vocês alunos pudessem aproveitar esse momento e fazer perguntas e poder trazer e absorver o máximo desse momento! Está bom? Obrigada a vocês!
<João Sampaio>: Obrigado a você, professora!
<aplausos>
<João Sampaio>: Por favor, microfone aqui. A gente tem um inscrito.
<Aluno>: Valeu! Eu sou Marco Antonio do 3º A, aqui do Luis Viana, já estudo aqui há 3 anos e é a primeira vez que eu vejo esse Projeto Lanterninha. E como você falou, o Lanterninha ele indica, não é? Esse projeto é individual, não é isso? Ele trabalha sem ser pelo governo?
<João Sampaio>: É o projeto de algumas pessoas que trabalham já com cinema e queriam fazer com que pessoas que tem menos acesso ao cinema tivessem esse acesso.
<Aluno-Marco Antonio>: Ótimo, ótimo! Eu gostei do filme! Bastante bacana! Esse filme vai ser mostrado também ao MEC?
<João Sampaio>: Olha, o João falou de uma experiência. Ele pode falar melhor.
<João Jardim>: O filme já foi mostrado ao MEC. Eu tive a oportunidade de ir lá mostrar pras pessoas, coordenadores do ensino médio de diversos Estados.
<Aluno-Marco Antonio>: Beleza! Eu vou fazer mais uma pergunta. Qual a apresentação desse projeto em outras escolas como já teve em Pernambuco e em outros Estados aqui do Brasil? Houve algum resultado de melhoras, tanto para os alunos, quanto os professores?
<João Sampaio>: Você fala o projeto ou o filme? Porque a gente tem aqui as duas coisas.
<Aluno-Marco Antonio> O projeto e o filme.
<João Jardim>: O filme ele já foi exibido em muitas escolas, vem sendo exibido em escolas, Universidades. Principalmente Universidades que preparam os professores. O que o filme tenta mostrar, não foi nem uma coisa consciente, mas o que ele acabou se tornando é uma reflexão sobre o que acontece no ensino médio sobre o ponto de vista da realidade, tanto do aluno quanto o do professor. Então ele toca nessa questão do comportamento do aluno, da crise da adolescência, daquelas emoções “à flor da pele”, o quanto isso atrapalha, o quanto isso move, o movimento dentro da sala de aula também. Ou seja, essa questão mesmo da necessidade de protagonismo. O menino lá do Rio de Janeiro que era rebelde e que não conseguia muita coisa dentro da escola, mas através da banda, da história da banda, que é uma coisa absolutamente comum em escolas no mundo inteiro. E o Brasil que é um país tão musical não ser obrigatório que todas as escolas tenham uma banda. Que tipo de banda seja. Pode ser uma banda... Desde banda de antigamente, até uma banda de axé, uma banda de não sei o que... A banda é uma coisa que, teoricamente ela, no mundo todo é utilizada pra questão da disciplina porque todo mundo que faz parte de uma banda sabe que tem que ter disciplina. Não é uma banda de rock, mas aquela coisa de ter um grupo, você ter que se submeter a uma ordem, você ter que se submeter a uma hora de entrada, a uma hora de não entrar. Música é uma coisa muito ligada à disciplina e ordem. Então eu acho que o filme tentar tocar nessas questões, na necessidade que o adolescente tem de se expressar, de dizer o que ele pensa, o quanto que os professores são atingidos de forma direta por esse comportamento que é absolutamente natural na adolescência, que é um comportamento mais intempestivo, muitas vezes mais violento, mas que o professor tem dificuldade de lidar porque como a violência no mundo está muito mais forte do que ela já foi, então hoje em dia ela reverbera dentro da sala de aula de maneira muito mais intensa e a pessoa que está ali pra lidar com essa violência é um único ser humano que muitas vezes não sabe como lidar com ela. Isso é uma coisa que traz uma reflexão muito grande tanto pra alunos quanto pra professores. Não só do aluno perceber que aquela pessoa, que o professor também é vulnerável, que o professor também é muito atingido pelo comportamento dele, que é muito frustrante pro professor que alguém não aprenda quando ele ensina. Na verdade é como se o sujeito que produz um carro, ele faz o carro e o carro não anda. Como é que o cara se sente? É igual ao professor que ensina pro aluno e o aluno não aprende. Também pra ele é muito ruim. E até por isso muitas vezes tem esse comportamento um tanto quanto indiferente até, por parte do professor porque logicamente se dentro da realidade da escola você fosse se incomodar com cada um que não aprende seria quase insuportável porque a quantidade de pessoas que não conseguem aprender devido à própria ineficácia do sistema acaba sendo grande. E às vezes nem é um problema da escola, é um problema do país como um todo, das famílias desestruturadas, da falta de outro tipo de informação, de uma televisão que não educa que deseduca, de uma falta de valores em geral, às vezes até da falta de dinheiro pra consumir outras coisas que tragam conhecimento porque conhecimento não é só livro, escola. Conhecimento é tudo, é música, é cinema, é um livro, é você fazer alguma coisa que você vê um lugar novo, é você ir a um lugar que você nunca foi, ver pessoas que fazem coisas que você nunca viu. A gente aprende dessa maneira. Não aprende só todo dia na escola. É preciso que as pessoas possam ter condições aqui e ali, de fazer coisas diversas pra que elas possam se educar. Eu acho que o filme ele tem essa utilidade de fazer as pessoas refletirem sobre coisas que elas lêem, sempre, sobre a escola, mas não tem chance de se emocionar.
